sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ocaso

Naquela noite, o relâmpago do acaso prorrompeu no céu com tanto ímpeto que o rasgou em dois. Choveram prantos nas vizinhanças. Porém, quem mais lacrimejava perante àquela intempérie era o próprio céu, por motivos óbvios.

Os carros, eu mesmo os vi, estavam metade submersos; tanta era a água que o céu chorava. Trataram, então, os ratos de nadarem naquelas grandes piscinas de lágrimas , antes chamadas ruas, para o pavor das mulheres. Estavam cansados do marasmo dos bueiros. Os religiosos – Deus os tenha – procuraram alguma ligação com o dilúvio, com Noé, com o antigo testamento. Alguns pensaram em construir uma arca; mas o problema era os animais: só havia ratos.

Todo esse "dilúvio" causou enchentes pelas cidades em dois tempos, como dizem. Alguns músicos sobreviventes escreveram sobre o ocorrido num único compasso 2/4.

Seria de todo incômodo o desgraçado do relâmpago, se não os unisse naquela mesma noite. Ela sem ter como voltar para a casa, ele oferecendo-lhe a sua. Nada havia entre os dois antes; agora eram amantes. Se amaram através da noite, absortos da tempestade, dos ratos, da vida, do mundo. E do mundo e da vida.

Passaram-se as horas, os dias nas horas, as semanas nos dias, os meses nas semanas e, por fim, passaram-se os anos. A chuva não passou. Chove até hoje. E até hoje, submersos e esquecidos, eles continuam se amando. O acaso, ou destino, sorriu-lhes do horizonte e desapareceu no ocaso para se juntar às estrelas, na certeza de que cumprira seu papel.

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