domingo, 21 de novembro de 2010

— Dia estranho, não é mesmo?
— Como?
— Dia estranho.
— Todo dia é estranho.
— Não. Hoje... essa névoa... as ruas desertas...
— Pra mim, todo dia é estranho. Eles nunca me convencem.
— Quem não te convence?
— Os dias... são falsos... estranhos... isso não pode ser a realidade... não é possível que seja... isso é... sei lá que porra é isso tudo.

A arte de produzir efeito sem causa, Lourenço Mutarelli.

domingo, 7 de novembro de 2010

Vera

A Vera revela sua nudez.
Toda nua, a Vera,
calma, quieta, espera...
(pensando)

"Mas quer foder comigo de uma vez"!

Acalme-se, Vera!
Desse modo, você arruina os versos, Vera!
Revela-me em outro momento...

A Vera revela sua nudez.
Toda nua, a Vera...

"Mostra, sem rodeios, sem hesitar,
que é crua deveras".

E fode comigo outra vez!

terça-feira, 26 de outubro de 2010

À luz de tudo isso, desfaço-me de qualquer pretensão à grandeza e recolho-me em minhas singelas plumas. De coisas ínfimas se faz uma vida - alpiste crocante, castanhas adocicadas, frutas tenras, banho de sol, água fresca, brisa benigna, papagaias espirituosas, bons amigos. De coisas ínfimas se faz uma vocação...

Prosa de papagaio, Gabriela Guimarães Gazzinelli

sábado, 16 de outubro de 2010

Poesia

Gastei uma hora pensando num verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Já perceberam...

Que o camaleão está sorrindo?

Ocaso

Naquela noite, o relâmpago do acaso prorrompeu no céu com tanto ímpeto que o rasgou em dois. Choveram prantos nas vizinhanças. Porém, quem mais lacrimejava perante àquela intempérie era o próprio céu, por motivos óbvios.

Os carros, eu mesmo os vi, estavam metade submersos; tanta era a água que o céu chorava. Trataram, então, os ratos de nadarem naquelas grandes piscinas de lágrimas , antes chamadas ruas, para o pavor das mulheres. Estavam cansados do marasmo dos bueiros. Os religiosos – Deus os tenha – procuraram alguma ligação com o dilúvio, com Noé, com o antigo testamento. Alguns pensaram em construir uma arca; mas o problema era os animais: só havia ratos.

Todo esse "dilúvio" causou enchentes pelas cidades em dois tempos, como dizem. Alguns músicos sobreviventes escreveram sobre o ocorrido num único compasso 2/4.

Seria de todo incômodo o desgraçado do relâmpago, se não os unisse naquela mesma noite. Ela sem ter como voltar para a casa, ele oferecendo-lhe a sua. Nada havia entre os dois antes; agora eram amantes. Se amaram através da noite, absortos da tempestade, dos ratos, da vida, do mundo. E do mundo e da vida.

Passaram-se as horas, os dias nas horas, as semanas nos dias, os meses nas semanas e, por fim, passaram-se os anos. A chuva não passou. Chove até hoje. E até hoje, submersos e esquecidos, eles continuam se amando. O acaso, ou destino, sorriu-lhes do horizonte e desapareceu no ocaso para se juntar às estrelas, na certeza de que cumprira seu papel.

sábado, 25 de setembro de 2010

Apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa. O ambiente, por si só, é apagado: vermelho carmesim, empesteado daquelas rêmoras que, agregadas à fera, sentem-se saciadas com os restos que a elas chegam. Aqui, porém, a fera era os restos; estes, por sua vez, deixados pelos pequenos peixes, uns aos outros.

Predominava a espera, o ensejo. Era preciso. É verdade que tudo aqui exala um perfume cálido; mas aquelas rêmoras, agora tubarões, não se importam com o perfume. Lúbricos e abastados, como bons senhores que são, esperavam. Ela também esperava, nada abastada, diga-se de passagem; mas lasciva, talvez. Valhe-se o dito popular que diz: "Aquele que só pensa em trabalho, torna-se maçante".

Quando enfim ela é encontrada, torna-se tudo uma verdadeira festa. Lençóis emaranhados, travesseiros jogados, alarias que incluem todo o tipo de palavras daquelas inevitáveis. Claro que, da parte dela, são palavras um pouco aleivosas, mas isso não vem ao caso. Estão lá a mulher com espírito de tartufo - ou o tubarão de antes - e a rêmora. A rêmora devora a fera. Mas, se acabou-se o tempo, já lá se vai o gozo.

Apagou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e espera o próximo. Talvez, por displicência, uma mera negligência destas jogadas a esmo, não percebem estes senhores que eles próprios são as putas. E está para nascer, quem sabe por outra negligência, o legítimo, o puro, o filho da puta.