Ao carrilhão apetecia que as zero horas de um momento qualquer – nota-se que não estamos tratando disto com precisão, ainda que esta seja necessária às ciências – fossem recebidas com suaves badaladas de sinos que muito se conhecem no páramo, de modo que apenas esses notáveis relógios sabem fazer.
Não era manhã, e nem Hipnos havia corrido por todo o céu: eram apenas zero horas. Não era, também, situação idônea para ser classificada dentro dos limites do aqui e do agora. Era um sonho... Isto! Um sonho o era, pois. E esse admirável relógio que lá habitava tornava para si todos os holofotes de protagonista.
Na verdade, não havia holofotes. O relógio encontrava-se suspenso num ambiente caiado e estava à vontade para badalar suas zero horas. Para sempre. Ora, todos conhecemos os sonhos e suas porfias: cidades são erguidas em meio ao ermo e à solidão, orgasmos são consumados para o deleite dos amantes, o mundo é consumido ferozmente pelo fogo de tempos derradeiros e, em seguida, recriado e agraciado com um sol fulgurante, tudo num piscar de olhos. Entretanto, assim como os holofotes, os olhos estavam ausentes do sonho, o que é menos surpreendente que comum.
Quando é desejo dos sonhos, o tempo é ignorado, tal como fazemos com o real. E, naquele relógio que só registrava passado, o real se apresentava sem rodeios. Morfeu era o relógio, e o relógio era Morfeu. Ele vencera.
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